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    Published on 05-11-2012 20:57  Número de Visualizações: 6034 
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    A biodiversidade é um conceito que, embora o leitor decerto conheça e identifique, não é fácil definir e muito menos compreender toda a sua amplitude e importância em qualquer sistema de suporte de vida. Este artigo pretende ajudar o leitor a apreender melhor este vasto e dinâmico conceito e a sua importância, relacionando-o com um mundo que todos nós conhecemos – a aquariofilia. Neste contexto, é fundamental perceber o papel que a biodiversidade existente em cada aquário desempenha, garantindo a existência e continuidade de um «mini» ecossistema funcional e saudável, essencial para o sucesso de qualquer aquário.




    PARTE 1


    A biodiversidade
    A biodiversidade ou diversidade biológica, de acordo com o Fundo Mundial para a Natureza (1989), consiste na «…riqueza da vida na terra, os milhões de plantas, animais e microorganismos, os genes que eles contêm e os intricados ecossistemas que eles ajudam a construir no meio ambiente». Vamos tentar perceber melhor este conceito, as suas implicações, a sua extensão e toda a sua importância.
    Numa primeira abordagem, denota-se, à partida, que este conceito engloba várias escalas do micro ao macrocosmo, considerando três níveis bem definidos de diversidade. O primeiro, mais específico, está relacionado com toda a variação genética que existe, tanto intra como inter espécie e/ou população e, por isso, é denominada diversidade genética. Em seguida, surge uma outra vertente: a diversidade das espécies, ou seja, toda a sucessão de espécies existentes na Terra, desde os humildes organismos unicelulares até aos mais complexos reinos multicelulares dos chamados animais superiores. Finalmente, há que ter em consideração uma outra vertente mais geral e abrangente: a diversidade ecológica, representada pela imensa variedade de biomas, ecossistemas, comunidades, nichos e habitats, resultado de uma resposta conjunta das espécies de acordo com as condições ambientais, originando muitas das zonas mais produtivas e essenciais para a sobrevivência do planeta.
    Todas estas vertentes são importantes para a sobrevivência das espécies e ecossistemas envolventes e, por isso mesmo, cruciais para o Homem. Talvez seja preferível dar um exemplo para facilitar ao leitor a identificação de cada nível de diversidade, utilizando para isso um mundo fácil de aceder: o seu próprio aquário. Assim, toda a variedade de plantas, peixes, corais, moluscos, crustáceos ou equinodermes, toda a gama de espécies que o seu aquário possa possuir, representam a vertente das espécies. Contudo, cada organismo vale também pela sua individualidade e singularidade fornecida pelo seu código genético, o que define a diversidade genética do seu aquário. Se ainda assim este nível for difícil de distinguir do anterior, podemos pensar, por exemplo, em vários organismos de uma mesma espécie de peixe, certamente tão diferentes como qualquer um de nós em relação à restante população humana, que valem pela sua particularidade, cada qual possuindo um diferente conjunto de genes que o representam e definem. Todo o conjunto de organismos existentes no seu aquário interage como uma comunidade, alterando e influenciando o ambiente em seu redor, originando ecossistemas diferentes. Deste modo, cada aquário em si representa uma variação deste nível mais amplo de diversidade.
    É necessário ter em consideração uma outra particularidade em relação ao conceito de biodiversidade. As populações de que trata estão sujeitas a uma evolução constante e permanente, o que significa que é um conceito dinâmico, o que é essencial para melhor apreender este conceito e perceber alguma da sua problemática.


    Diversidade funcional
    Em última análise, parece evidente a existência de uma imensa diversidade funcional que enquadra esta definição, na medida em que cada espécie é responsável por uma determinada função que, direta ou indiretamente, de acordo com o seu nível de diversidade, é essencial para a sobrevivência do mundo natural e importante para o Homem. Neste sentido, os ecossistemas são responsáveis pelo fornecimento de serviços de uso direto, tais como recursos alimentares, medicina e saúde, material industrial, controle biológico de pragas e ecoturismo (ex.: parques marinhos), e de uso indireto, muitas vezes mais cruciais, tais como a regulação atmosférica, climática e hidrológica, ciclagem de nutrientes, controle de pestes e pragas, filtragem de ar e água, protecção e estabilização dos solos, polinização, entre outros.
    A partir da compreensão da extrema importância que estas funções representam, é logicamente natural que um ecossistema mais diversificado possua uma maior capacidade de resistência ao stress e, consequentemente, seja mais produtivo, ou seja, quanto maior a biodiversidade de um ecossistema maior será a sua estabilidade. Deste modo, a perda de espécies irá resultar numa perda de funções por parte do ecossistema, diminuindo a sua capacidade de renovação, restabelecimento e regeneração.



    As ameaças à biodiversidade
    A biodiversidade tem, assim, contribuído de muitas formas para o desenvolvimento da cultura humana. Porém, o Homem tem retribuído alterando significativamente e, em certos casos, permanentemente, toda a diversidade do mundo natural. Durante o último século, tem-se assistido a uma quebra da biodiversidade. É verdade que sempre existiu uma certa continuidade e equilíbrio entre o aparecimento de novas espécies e a extinção de outras. Contudo, o que é preocupante, e que se tem vindo a agravar, é a taxa de extinção a que se assiste, estimada em cerca de 80 espécies por dia, ou seja, aproximadamente 3 por hora, o que significa que se o leitor demorar uma hora para ler esta revista, no final terão se extinguido 3 espécies, o que dá que pensar!
    A grande redução da biodiversidade ocorre a todos os níveis com a degradação/destruição de ecossistemas, comunidades e espécies, sendo estas conduzidas à extinção. Esta redução deve-se à alteração e destruição de habitats naturais para satisfação das necessidades humanas. Assim, as principais ameaças à biodiversidade, nomeadamente do meio aquático, são: a pressão sobre as zonas costeiras (destruição de habitats costeiros, como as florestas de manguel), a produção de energia (barragens), a extração/exploração de recursos vivos e não vivos, a poluição atmosférica e aquática, a introdução de espécies exóticas e o aquecimento global. Apesar de se assistir a uma cada vez maior sensibilização por parte de alguns governantes, a verdade é que ainda há muito a fazer antes que seja tarde. Ironicamente, estamos destruindo o que é responsável pela nossa própria sobrevivência e um dos problemas é que aquilo que não é macroscopicamente visível ou quantificável a curto prazo, não conta para muita gente, que nem se apercebe que muitas vezes esses são os processos mais importantes e essenciais ao sucesso da população humana. A verdade é que se não formos nós a cuidar do planeta e, automaticamente, do nosso meio de subsistência, quem o fará?


    O meio marinho como um sistema aberto
    O oceano aberto e os sistemas costeiros são fontes inesgotáveis de biodiversidade. Das mais de 1,5 milhões de espécies descritas, apenas 250.000 são marinhas, porém estas encontram-se distribuídas por um maior número de Filos e Classes (32 Filos no oceano e apenas 12 em ambiente terrestre; 21 Filos exclusivamente marinhos).
    A ausência de barreiras físicas entre os diversos habitats permite o transporte ativo dos seres marinhos e passivo dos seus ovos e larvas pelas correntes através do vasto espaço multidimensional oceânico. Perante essas migrações, a sobrevivência vai depender da adaptabilidade das diferentes espécies às variações das condições oceanográficas ao longo do meio marinho (hidrodinamismo, temperatura, luminosidade, salinidade, profundidade, disponibilidade de nutrientes, etc.). Apesar de estes constrangimentos, o meio marinho não apresenta verdadeiras barreiras físicas (exceptuando plataformas continentais, ilhas e arquipélagos).
    A base das cadeias tróficas inicia-se com o input energético proveniente do sol (salvo excepções como é o caso das fontes hidrotermais, em que a energia é obtida de sulfureto de hidrogénio). Esta energia permite o desenvolvimento de algas e plantas, que constituem a produção primária marinha. O fitoplâncton (ex.: diatomáceas, dinoflagelados e cianobactérias), as macroalgas (ex.: laminárias e caulerpa) e mesmo as plantas adaptadas ao meio marinho (ex.: fanerogâmicas marinhas e mangues) constituem o início das cadeias tróficas marinhas, pois alimentarão zooplâncton, peixes, crustáceos e outros seres que, por sua vez, irão alimentar outras espécies, originando-se um entrelaçado de relações mais ou menos complexo.
    Nos habitats marinhos, os seres primários circulam e abundam o suficiente para garantir a sobrevivência dos seres dos níveis tróficos seguintes. Temos, desta forma, um sistema aberto na medida em que se dispõe de um fluxo energético contínuo (ainda que em determinadas regiões geográficas possa ter características de variação de intensidade sazonal) que o alimenta e, por outro lado, a diversidade é de tal ordem que se pode falar em multi-sistemas mais ou menos interligados e que se compensam, obtendo-se trocas energéticas que beneficiam o ecossistema global, o que não ocorreria em sistemas fechados ou isolados.


    O aquário – sistema aberto ou fechado?
    Garantir o equilíbrio autónomo de produtividade num aquário de recife é algo extremamente complicado, diríamos mesmo impossível. Um sistema em cativeiro requer um conjunto de intervenções artificiais ou humanas para garantir o seu funcionamento. Meios artificiais para garantir a iluminação, a propulsão da água, a manutenção da temperatura, a salinidade, o cálcio e dureza carbonatada, etc., são utilizados para simular as condições do habitat natural no meio marinho. Para efeitos desta análise, vamos ignorar o fato de que estas condições são manipuladas artificialmente e consideremo-las como se de um ecossistema natural se tratasse. Deste ponto de vista, de que é que diferem os nossos aquários de recife de um recife natural num ambiente tropical?
    Num aquário, ao contrário do recife natural, temos verdadeiras barreiras físicas relativamente ao exterior. Não temos trocas energéticas com outros habitats e não há, portanto, reposição autónoma de vida através de movimentos migratórios. Estamos então perante um sistema verdadeiramente fechado? Vejamos...
    Num recife doméstico a produtividade primária é escassa (quem é que pretende ver o desenvolvimento de microalgas no seu aquário?) e, mesmo quando não é, dificilmente conseguimos ter presente todos os níveis tróficos que permitam, por exemplo, que todos os nossos peixes se alimentem autonomamente e que não requeiram qualquer tipo de intervenção nutricional por parte do aquariofilista.
    Determinados seres planctónicos e planctonívoros simplesmente não sobrevivem num aquário porque, ou não encontram a diversidade de alimento de que necessitam, ou o ambiente é demasiado adverso para a sua sobrevivência (bombas de água, demasiados predadores por volume de água, etc.). O equilíbrio é de tal ordem frágil que os elos da cadeia trófica estão e são facilmente quebrados. Assim, estes sistemas requerem inputs energéticos externos adicionais.



    O aquariofilista adiciona frequentemente alimento aos peixes, corais e outros invertebrados. Por outro lado, ocasionalmente repõe biodiversidade através da adição de seres marinhos cujas populações decrescem com o tempo (ex.: detritívoros). Alguns aquariofilistas simulam ainda aumentos de produtividade primária, recorrendo à adição de concentrados de células fitoplanctónicas.
    Se, por um lado, os sistemas domésticos são fechados perante habitats e biodiversidade externa, por outro são nitidamente abertos, já que beneficiam de constantes inputs energéticos e de diversidade através de uma «mãozinha» humana vinda do exterior.




    Texto publicado com autorização de:


    Texto:
    João Cotter
    Paulo Torres


    Fonte:
    Revista bioaquaria (ed. n.º 1)

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